Alguns livros que li nesse primeiro semestre
A ideia do meu blog era, ou melhor, É ir publicando sobre as coisas que gosto e ando fazendo (e gostando de fazer) a medida que vou fazendo essas coisas, agora, teoria a parte, e o tempo pra escrever sobre? Hehehehe nos últimos meses eu tive um período de letargia de uns dois meses, seguido pela extrema exploração do proletariado (eu) pela burguesia (a empresa onde eu trabalho), bicho, definitivamente não é fácil estar vivo.
Felizmente não parei com alguns hábitos meus, sendo a leitura um deles, acho que agora é um bom momento pra escrever um pouco sobre e quem sabe ajudar você caro leitor (se é que você existe!) a descobrir sua próxima leitura. A seguir, alguns livros que amei, outros que achei ok e um em particular que eu detestei com todas as minhas forças!
Monstros - O dilema do fã
TítuloClaire Dederer
Autor(es/as)2025
AnoAmarcord
EditoraHistória da Arte, Critica Literária
GênerosApesar de ter iniciado a leitura desse no final do ano passado, só terminei mesmo no início desse ano, em Monstros, a autora discorre sobre o tema que vira e mexe pipoca na rede mundial de computadores, quando um artista/pessoa que amamos se torna, ou melhor, descobrirmos que é uma pessoa na melhor das hipóteses de índole duvidosa e em alguns casos comprovados, uma pessoa absolutamente detestável, ou ainda como o título do livro sugere, verdadeiros monstros.
O que mais gostei nessa empreitada da autora é que ela não propõe soluções e evita cair em moralismos baratos para um tema complexo, ao contrário, ela levanta muito mais questões do que as responde, a cada capítulo, ela pega alguma personalidade problemática como exemplo, aqui temos figuras da literatura, do cinema e da música, e partir dai ela dá um breve contexto histórico da figura em questão, expõe sua própria relação pessoal com a figura e arte que tal figura produz enquanto vai levantando questões.
Em tempos de saltos argumentativos intergalácticos, do tipo “Há então você gosta de livro de bruxinho? Que tal ser CRUCIFICADO EM PRAÇA PÚBLICA?!” Oi? Piadas a parte, esse livro é um verdadeiro “vamos tocar na grama um pouco e tomar um solzinho” especialmente recomendado para quem, como eu, adora uma artezinha proibida, ou pior, arte ou algo que em decorrência de algum acontecimento infortúnio, acabou sendo, como dizem os jovens, CANCELADA! Pare de discutir com estranhos na internet e se faça o favor de ler esse livro.
Devoção
TítuloPatti Smith
Autor(es/as)2017
AnoCompanhia das Letras
EditoraLiteratura Estrangeira, Autobiografia
GênerosNo início desse ano, fiquei obcecado pelo último álbum da Rosália, o Lux, a na introdução da minha música favorita desse álbum, a faixa La Yugular, tem um trecho de uma entrevista da gigantesca Patti Smith, obviamente fui atrás da entrevista e fiquei obcecado por ela também.
Já conheço a Patti já há bastante tempo, inclusive tenho uma história particularmente trágica com ela, quando eu trabalhava na finada Livraria Cultura do conjunto nacional, um belo dia sai para almoçar, e quando voltei um colega me fala “Cara, você não vai acreditar em quem apareceu aqui, a Patti Smith! Ela autografou alguns livros dela e foi embora, não deve ter ficado nem 15 minutos!”. Você já pode imaginar que eu chorei lágrimas de sangue nesse dia, caras, se eu tivesse enrolado uns 10 ou 15 minutos, poderia ter trombado essa lenda e ter farmado um pouco de sua aura. Me lembro claramente que foi esse livro que esse colega conseguiu o autógrafo, então depois de tantos anos resolvi aproveitar minha recente obsessão para ler um livro dela, que surpreendentemente já escreveu diversos deles, apesar de apenas os mais recentes terem sido traduzidos para o português.
Esse é um livro bem curtinho, quase um diário de viagem, onde a autora retoma algumas de suas memórias para falar sobre escrita, pessoas e lugares que nos inspiram para criarmos algo, um dos capítulos do próprio livro é uma especie de exercício das próprias inspirações da autora. Adorei ter lido esse justamente numa período onde eu estava buscando inspiração para, entre outras coisas, escrever mais por aqui. Engraçado a vida, por muito pouco perdi de me encontrar com ela, apenas para quase uma década depois, me reencontrar com ela quando estava perdido.
A Cabeça do Santo
TítuloSocorro Acioli
Autor(es/as)2014
AnoCompanhia das Letras
EditoraLiteratura Nacional, Realismo Mágico
GênerosOutro livro que tenho uma história, mais de uma década atrás fui num bate-papo literário no SESC Vila Mariana para ver um autor que eu estava obcecado na época, Ismael Caneppele, para o ouvir falar do seu recém-lançado livro Os famosos e os duendes da morte, nesse evento também estava a Socorro Acioli para falar do seu também recém-lançado A cabeça do santo, e ao final do bate-papo rolou um sorteio dos livros de cada autor e fui um dos felizardos que ganhei esse livro. Voltamos para o presente e só recentemente tomei vergonha na cara para ler esse livro que estava parado na minha estante a mais de dez anos.
Curtinho de apenas 200 e poucas páginas, diferente do livro do Ismael, onde o garoto protagonista tenta fugir de um suposto destino, aqui o garoto protagonista vai cumprir o seu destino profetizado pela sua falecida mãe, bem uma jornada do herói mesmo, em busca de encontrar com o que lhe resta de uma família, seu pai desaparecido.
O que mais gostei nesse livro foi seu estilo novelesco, os capítulos são curtos e parecem episódios de uma novela, ao decorrer da historia outros personagens vão se destacando e sendo o foco do episódio, ops, capítulo, e a história apesar de rolar num típico sertão brasileiro, tem um quê de sobrenatural bem sutil que vai juntando todas as pecas. Adorei o livro, ele é bem humorado, meio Twin Peaks, meio novela das oito, ótimo para ler indo e voltando do trabalho.
Arte e medo: Observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte
TítuloDavid Boyles e Ted Orland
Autor(es/as)2024
AnoSeiva
EditoraDesenvolvimento Pessoal
GênerosComecei o ano muito bem, mas alguns meses depois e cheio de ideias erradas na cabeça, entrei um período de letargia tanto violento que eu mal tinha forças pra fazer algo além de trabalhar, que sa fazer qualquer outra coisa, então em busca de inspiração pra me tirar do marasmo, acabei trombando esse livro.
Também curto, ele é uma espécie de guia bem honesto para uma pessoa criativa superar as barreiras e empecilhos mais comuns na hora de fazer arte, ou qualquer outro ato criativo por si só. Cada capítulo os autores abordam um tema dessa questão e pode até parecer que é voltado para pessoas que desejam fazer da arte sua profissão, sim, é o caso aqui, mas não apenas isso, recomendo para qualquer pessoa que como eu se considere criativa, mas não sabe por onde começar ou esteja sofrendo de algum bloqueio, seja ele criativo ou circunstancial.
Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia
TítuloVilém Flusser
Autor(es/as)2018
AnoÉ Realizações
EditoraFilosofia, Fotografia
GênerosSabe quando tu lê um livro que explode sua cabeça e expande seus horizontes de maneira irreversível? Esse foi um desses livros pra mim, ele era uma das referências de um palestra que eu adorei na Cryptorave 2025, havia tentado ler ele ano passado mas não estava com a cabeça para acompanhar um livro que mesmo sendo pequeno, é muito denso de informações, se ignorarmos o prefácio, as primeiras páginas são um grande glossário dos termos que o autor vai utilizando no decorrer do livro, e é um nível de abstração bem elevado, então tem que estar com a cabecinha boa e com tempo para parar e refletir sobre o tema.
Apesar de ser um livro comumente catalogado como filosofia/teoria da fotografia, ao ler essa obra vamos percebendo que esse é apenas o objeto de estudo adotado pelo autor para a aplicação de uma teoria muito mais abrangente, aqui ele usa a fotografia para pensar de maneira critica o uso de tecnologia, como a usamos e como permitimos que sejamos usados por ela, e principalmente, como essa(s) tecnologia(s) limita(m) nossa percepção do mundo. A genialidade do autor é justamente o uso da abstração que apesar de dificultar a introdução e absorção de suas ideias, acaba permitindo que elas (suas ideias) sejam facilmente aplicáveis em diversos outros campos do conhecimento, como a computação, que inclusive é citada em um dos capítulos.
Esse livro, caso não seja, definitivamente deveria ser considerado um clássico da filosofia moderna, inclusive vou além e acredito que essa leitura deveria ser obrigatória na disciplina de teoria da computação! Especialmente recomendado para tecnólogos e pessoas que trabalham com qualquer tipo de tecnologia e tenham o anseio de pensar criticamente sua(s) ferramenta(s) de trabalho.
O Ato Criativo: Uma Forma de Ser
TítuloRick Rubin
Autor(es/as)2023
AnoSextante
EditoraDesenvolvimento Pessoal
GênerosAcho que eu nunca detestei tanto um livro como eu detestei esse, esse foi o livro que finalmente me convenceu a, se eu não estiver gostando de um livro, filme ou álbum musical, simplesmente ABANDONAR e ir fazer outra coisa! Ele tem o mesmo tema do *Arte e Medo *que citei acima, e parece ser muito interessante tendo em vista que é escrito pelo produtor de diversos excelentes albums do rock e outros gêneros musicais, então o que poderia ser ruim? Na minha opinião praticamente tudo!
Vejam, vou até dar o braço a torcer e dizer que a intenção do autor é boa, o objetivo da obra a acender sua criatividade, lhe dar exemplos e técnicas para que você possa aprender a se expressar criativamente, é cheio de dicas e truques e conta com a experiência pessoal do autor e de pessoas próximas a ele. Pô que legal, infelizmente o método que ele escolheu para escrever esse livro foi o pior possível, ele tem uma linguagem bem livrinho de auto-ajuda dos mais baratos possíveis, durante toda a leitura eu senti minha inteligência e capacidade sendo subestimada, ele não desafia nem atiça a curiosidade do leitor, o jeito que ele escreve diversas vezes me fez sentir infantilizado ou vitima de algum tipo de deficiência mental.
Eu dei todas as chances que eu pude para esse livro, tive toda a paciência do mundo, toda hora eu pensava “não, vai melhorar, relaxa”, “não, vou reler esse capítulo, eu não dei a devida atenção”, pipipi popopo, e quando mais chances eu dava com mais raiva eu ficava, porra, eu li essa merda inteira, eu deveria ter sido pago pra isso! Eu pesquisei a imagem do autor durante a leitura e meu ódio simplesmente triplicou, sabe aqueles hipongas nojentos, claramente de classe alta mas que adoram fazer cosplay de pessoa em situação de rua e são praticamente alheios a realidade que os cerca? Ler esse livro me fez ter quase certeza que esse cara fede!
Bicho, eu nunca entendi o porque alguém pagaria um ghostwriter para escrever um livro, mas lendo essa merda, só consigo pensar que foi uma oportunidade perdida, se ele tivesse pago alguém para escrever sobre o tema, teria ficado muito melhor! Não é atoa que diversos tiktoks de homens performáticos tinha esse livro no meio, faça um favor a si mesmo/a fiquem longe desse ou, se quiserem algo no mesmo tema, leiam o Arte e Medo que citei acima pois é muito mais honesto e infinitamente superior, tanto na escrita como no conteúdo.
Famesick - A Memoir
TítuloLena Dunham
Autor(es/as)2026
AnoRandom House
EditoraAutobiografia
GênerosEsse é um livro que definitivamente não estava no meu radar, honestamente eu não fazia ideia que a autora iria lançar um novo livro, sendo que eu nem li o anterior dela, a questão é que, navegando pelo umbral das trevas (o finado Twitter, me julguem!) descobri que a autora havia voltado a plataforma, o que claramente me deixou interessando. Pra quem não sabe, Lena é uma das escritoras e protagonistas de uma das minhas séries favoritas, Girls, da HBO, e quando eu descobri que o livro nada mais era que uma biografia do período antes, durante e após a série, já podem imaginar que fiquei obcecado!
O problema de usar aquele abismo de fogo e trevas que era o Twitter é que quanto mais você interage em algum assunto, mais esse assunto aparece pra ti, o que cria uma falsa sensação de “assunto do momento” mesmo que apenas 15 gatos pingados espalhados nesse enorme mundão estejam falando sobre o tema. Depois que o livro foi lançado, fui acompanhando os gringos lendo e dando suas opiniões preliminares, e quanto mais eu fazia isso, mas dessas postagens apareciam pra mim, e o pior de tudo, as pessoas fãs da serie como eu começam a compartilhar trechos e cenas da série de contextos que ela escreveu no livro, o que dava um significado novo e só confirmava a genialidade da autora, e é claro que o fator nostalgia pesou violentamente e tive que parar tudo pra ler esse livro.
Eu queria muito dar uma opinião honesta e fazer um critica séria, tal qual a Marie fez para a 451, mas infelizmente essa eu vou ficar devendo, se eu já gostava e admirava ela pela série agora posso confirmar com a mais absoluta certeza que sou completamente apaixonado por ela, a autora é bem honesta e realista ao expressar suas vivências, expõe toda a loucura que é fazer uma série de televisão tendo basicamente zero de experiência e tendo que lidar com o sucesso e ódio do público, e sim, ela se faz (ou parece se fazer) de boba de vez em quando, algo que eu relevei com o maior prazer, principalmente pois ela não esconde os privilégios de ter tido alguns contatos que facilitaram muito sua vida.
Eu levei três semanas pra ler esse livro, pois eu me segurei o máximo que pude, mas eu poderia ter devorado ele em poucos dias, de tão interessante e boa que foi a leitura, a todo momento me parecia que eu estava falando com uma querida amiga que eu não via a muito tempo e que agora estava botando a conversa em dia, a gata realmente sabe escrever. Ao contrário da Marie, não acho que ela passou o livro inteiro pagando de coitada, até porque eu detesto isso, mas sim, durante os relatos dá pra ver que ela meteu VÁRIOS dos maiores loucos durante essa parte de sua carreira, mas pô, é nossa amiga Lena, é o jeitinho dela! (Amo!! 😘).
Infelizmente ainda sem tradução para o português, mas se você sabe ler em inglês esse livro é RECOMENDADÍSSIMO, inclusive baixei novamente todas as temporadas de Girls pois rever alguns trechos agora me fez perceber que assistir esse série nos meus vinte e poucos anos sendo um homem jovem e burrinho me fez perder as sacadas geniais dela, definitivamente a voz de uma geração, não sei se a sua, mas definitivamente é a minha.
A an-arquia que vem - Fragmentos de um dicionário de política radical
TítuloAndityas S. de Moura Costa Matos
Autor(es/as)2022
AnoSobinfluencia
EditoraPolítica, Filosofia
GênerosEssa foi minha leitura mais recente, esse livro traz uma série de ensaios para propor um futuro dicionário de política radical, o próprio titulo do livro já é uma tentativa de superar os significados linguísticos atuais e ir além, pois segundo o autor, usar as ferramentas (linguísticas) disponíveis atualmente já é uma tentativa de sabotar e mitigar o exercício imaginativo de pensar realidades possíveis.
Comecei meio sem vontade, ele começa um tanto lento, mas felizmente vai engatando e ficando melhor a cada capitulo. A proposta desse livro é bem interessante, discutir duplas de verbetes de forma critica, a partir de uma perspectiva radical e depois criar um terceiro verbete que seria a superação da dicotomia anterior. O autor rejeita o pensamente binário de bem e mal, bom e ruim, e busca pensar os novos termos a partir de realidades concretas e históricas.
Ao final da leitura achei o livro super interessante, me surpreendi com a proposta e o trabalho hercúleo do autor em desenvolver os temas, uma ótima pedida pra quem quer ler um livro diferentão de política.
Bem, esses foram os livros que li nesse primeiro semestre de 2026, eai, quais foram suas leituras desse ano? Caso esteja a procura da sua próxima leitura, ou melhor, de desenvolver o hábito da leitura em um mundo infestado de telas luminosas, espero que eu tenha ajudado você na sua próxima leitura.