Submundo

Escrito por Bruno Venâncio.

Belos Fracassados

Belos Fracassados

Título

Leonard Cohen

Autor(es/as)

1966

Ano

Todavia

Editora

Ficção Estrangeira, Erótico

Gêneros

Não julgue um livro pela capa, é o que dizem, mas dessa vez acabei julgando um livro pelo autor, o que poderia dar errado? Sem querer querendo acabei lendo um livro que é, entre outras coisas, erótico! Nessa postagem eu conto como foi ler um livro sem antes ler a sinopse.

Um belo engano

Depois que finalmente me formei, precisei ficar uns meses no ócio, no mais puro nada, descansar a mente depois de 6 anos e meio de estudos intensos, sou assim, gosto de mergulhar de cabeça do que eu gosto de fazer, mas precisava fugir um pouco dos livros técnicos e viajar novamente pelo mundo de faz de conta. Depois de alguns meses, com o cérebro lisinho novamente (ou quase isso), fui a busca de títulos de ficção para ler, eis que trombei pelas ruas da rede mundial de anúncios computadores um livro do cantor Leornard Cohen, não pensei duas vezes, coloquei na minha lista de leituras, só esqueci de ler a sinopse, um ato curioso pra quem trabalhou por dez anos em uma livraria.

Meu “erro” aqui é completamente compreensível, acredite, estava fugindo de qualquer leitura, aliás, qualquer atividade que não tivesse o único objetivo de me entreter, eu estava saturado de coisas com objetivos específicos, estudar uma disciplina, estudar para provas, aprender uma linguagem de programação ou métodos administrativos, pelo amor de deux, eu só queria uma punhetinha mental! Sem saber que ele também tinha sido escritor antes de iniciar sua carreira musical, que eu também não conhecia, apesar de saber que a maravilhosa versão de Hallelujah do Jeff Buckley era uma música dele, nunca tinha me aventurado na sua discografia, mas já sabia que ele era uma lenda na música, me bastou para ler a tradução da Todavia do seu livro.

Leonardo Cohen fotografado por Jack Robinson, Agosto de 1967 Leonardo fotografado por Jack Robinson, Agosto de 1967.

Gosto de iniciar coisas com a menor expectativa possível, vocês sabem, a mãe da decepção, etc e tal, mas um encontro às cegas também não é legal, uma verdadeira roleta russa literária. Imaginava um livro poético, romântico, talvez um pouco melancólico, do jeito que eu gosto, era como imagina a música dele, no entanto encontrei um livro sexual, erótico, de humor quase mórbido, envolvendo religião, movimentos políticos radicais, colonialismo, antropologia e prisão de ventre. A seguir, conto o que achei dessa doideira.

A década de 1960

Normalmente leio indo e voltando do trabalho, o que me deu tempo de pesquisar um pouco sobre o contexto da escrita enquanto li o livro, pensar nisso aqui é muito importante, anos 60, o rock’n’roll estava tomando o mundo de assalto, os Beatles já tinham impactado o mundo. A guerra fria e a guerra do Vietnã estavam a todo vapor, inclusive, uma ótima dramatização desse período pode ser vista no excelente “A Complete Unknown”, um filme biográfico do Bob Dylan (sim, mais um, mas esse é bom mesmo [Timothée Chalamet o amo e irei protegê-lo!]). A visão de que povos indígenas como bárbaros incivilizados já haviam sido pra lá de questionadas e desmistificadas nas décadas anteriores com diversas obras da antropologia, trazendo uma interpretação mais empática e humana desses povos “exóticos”, é muito clara a influência dessas obras pelos capítulos desse livro.

Leonard Cohen e Joan Baez em Newport Folk Festival, julho de 1967 Leonard Cohen e Joan Baez em Newport Folk Festival, julho de 1967.

Com esse contexto em mente, as coisas começam a fazer todo o sentido, principalmente pelo uso de alguns elementos que irei falar sobre adiante, ele conta a história de quatro personagens, o narrador antropólogo sem nome da primeira parte do livro, ele sofre de prisão de ventre e é um frustrado profissional e sexual, tem como melhor amigo F, sim, apenas F, o narrador e personagem central da segunda parte do livro. Além disso tem duas personagens femininas, Edith, a mulher do narrador sem nome, de origem indígena, que dá cabo da própria vida logo no início do livro, e Catherine Tekakwitha, uma indígena do século XVII convertida ao cristianismo e santificada posteriormente, essas duas últimas são (quase) sempre narradas a partir dos dois personagens narradores.

Profano e erótico

Logo nos primeiros capítulos (em sua maioria bem curtinhos) já tomei um susto, o narrador quer, ou melhor, precisa trepar com uma santa! Que porra é essa bicho? Confesso que fui pego de surpresa, encerrei a leitura pelo dia e fiquei pensando nisso o dia inteiro, foi ótimo descobrir o maldito conservador escondido dentro de mim. Apesar de não ser batizado e não ter uma religião, posso dizer que tenho uma formação católica, já que era obrigado a ir a igreja todo domingo de manhã até ter alguma autonomia pra simplesmente não ir mais. Mais tarde, na minha adolescência fui novamente “incentivado” a fazer a primeira comunhão e me batizar, passei dois anos fazendo catequese, honestamente não me importava muito além do saco de perder minhas tardes de sábado, mas ao final dos dois anos, ao descobrir que precisaria me confessar com o padre, tremi na base, só o pensamento de ter que falar para um homem desconhecido que eu me masturbava regularmente era como um filme de terror no qual eu era o protagonista! Fugi e nunca mais fui a igreja.

Leonardo Cohen fotografado por Michael Putland em Londres, 1974 Leonardo fotografado por Michael Putland em Londres, 1974.

Me recuperado do choque inicial, o desafio agora era parar de ler, nunca havia lido um livro erótico, fui corrompido, estava viciado, o que é complicado quando se tem um tempo tão limitado para a leitura. Tentava ler devagar, pro livro durar mais, porém estava sedento pelas próximas páginas, era como um edging literário, ficar excitado no ônibus e no metrô foi um experiência esquisita e engraçada, por vezes eu tive que parar a leitura pois estava ficando ofegante, quase babando sozinho, imagina se alguém percebe? Que vergonha!! Incrível como esse cara conseguiu tornar uma cena em um carro em alta velocidade, a participação em um protesto, um banheiro sujo de cinema e o cuidados médicos numa aldeia indígena em coisas altamente eróticas! Obrigado Leonard por desvirtuar um jovem rapaz! (A quem estou tentando enganar? hehehe).

Qualidade sem nome

Uma das coisas que mais me pegou foi a discussão sobre a sexualidade dos personagens. Claramente a prisão de ventre do narrador é uma alegoria a repressão sexual do personagem, que não consegue se conectar com sua esposa apesar de a trair com seu melhor amigo. F aqui é o exato oposto, completamente expansivo, onde o céu é o limite, transa com Edith, esposa do narrador e com o próprio narrador sem que ambos saibam! Um triangulo amoroso a lá Nelson Rodrigues que só é revelado ao final do livro. F tenta a todo momento incentivar o narrador a superar suas dificuldades, inclusive incentivando a fazer coisas moralmente questionáveis.

Em um estúdio de gravação, Leonard Cohen está em frente a um microfone, uma pessoa não presente na imagem avisa “Onde encontrar um palavrão, teremos que exclui-lô.” Em um expressão séria, Leonard responde “Bem, não existem palavras sujas - nunca.” Cena do documentário Ladies and Gentlemen… Mr. Leonard Cohen onde Leonard rejeita o termo palavrão.

Foi muito interessante ler esse livro atualmente, pois os personagens em alguns momentos se autointitulam “viados”, de forma pejorativo, “Admita F, somos viados!!” diz o narrador em uma discussão, é engraçado pensar que naquele época, não exista (acredito eu, posso estar enganado) uma sigla para pessoas LGBT+, pois claramente os personagens são homens bissexuais, mas é claro que essa é uma visão atual descolada do contexto da época. Cara que doideira, já imaginou ser algo que não tem nome? Que a única definição disponível é que é algo errado, sujo, profano. Complicado.

Um trope conhecido

Como todo bom livro tive além de surpresas alguns incômodos relacionados as personagens femininas do livro. As duas são narradas através de outros personagens, até faz sentido no caso de Catherine, já que o narrador pesquisa a vida dela, já falecida a séculos, e tem bastante participação na história, já Edith fica relegada a personagem secundária, um mero objeto narrativo para os outros personagens, uma pena, pois é muito perceptivo, e me pergunto aqui se foi uma intenção do autor, que ambas as personagens são bastante autônomas, não vivem em função dos outros personagens, tem agenda própria, principalmente Catherine.

Leonard Cohen fotografado por Roz Kelly em uma lanchonete em Nova Iorque, por volta de 1968 Leonard fotografado por Roz Kelly, Nova Iorque, 1968.

Um triste trope se repete aqui, personagens mulheres vítimas de violência sexual como uma ferramenta narrativa de construção de personagem, particularmente detestei, é foda que ambas as personagens tiveram o mesmo tratamento, principalmente pela escrita que, dado o devido contexto histórico, me parecia tão avançada para sua época, é aquilo, não dá pra confiar em homem mesmo (digo com conhecimento de causa). Catherine é uma mulher indígena, que rejeita sua cultura e deseja se converter ao catolicismo dos colonos, por livre e espontânea vontade. Edith é uma mulher que escolhe como quer gozar, pô cara, tava no caminho certinho.

Fica a dica

A experiência dessa leitura, pra mim, entre pontos forte e fracos foi extremamente positiva, eu jamais teria imaginado o compositor de um das maiores músicas gospeis de todos os tempos como escritor de um livro erótico e profano, ainda mais nos anos 60! Cada capítulo desse livro foi uma grande surpresa, ao final, fiquei com aquele vaziozinho de quando terminamos uma coisa muito boa. O foda agora é que, como primeiro livro erótico, já comecei com o nível lá em cima, a partir de agora não será um simples 50 tons de cinza que vai me dar essa briza! Curiosamente, quando comecei a trabalhar em uma grande livraria muitos anos atrás, eu via paletes e paletes desse livro, pensava “Porra, mas as pessoas realmente leem esse tipo de livro?”, mais de dez anos depois eu mesmo me respondo a minha esquecida pergunta, sim, leem sim, com muito prazer.

Leonard Cohen fotografado por Jack Robinson, Agosto de 1967. Leonard fotografado por Jack Robinson, Agosto de 1967.

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