Primavera Sound São Paulo 2022

Recentemente foi anunciado o retorno do Primavera Sound São Paulo para 2026, o festival que teve duas edições aqui no Brasil, uma em 2022 e outra em 2023, a edição de 2024 que havia sido anunciada ainda nos dias da edição 2023, mas foi cancelada alguns meses depois. Como esse mês faz também faz três anos da icônica e lendária primeira edição de 2022, trago as memórias do melhor festival de música que já fui.
O anúncio
Dois anos de pandemia depois e com a maioria das pessoas já com duas doses da vacina no corpinho, já estávamos sedentos por um pouco de normalidade, (apesar de que, para algumas pessoas mais abastadas, as restrições nunca foram seguidas), no início de dezembro de 2021 foi anunciado oficialmente a edição de São Paulo de uns dos maiores festivais de músicas da Europa, para o início de novembro do ano seguinte.
Inicialmente não dei muita atenção, nunca fui uma pessoa de ir em festivais muito grandes, principalmente por causa do valor dos ingressos, muito alto pra ver pouca coisa que eu gosto (isso sendo que tenho um gosto musical BEM diversificado), isso mudou durante o início das vendas dos ingressos, no final de Abril de 2022, pois junto foi liberado a lista de atrações que deixou todo mundo de queixo caído, para mim foi como ver o anúncio de um paraíso da música! Um artista/banda melhor que o anterior, assim que eu vi o line-up a minha hype foi pras alturas e não consegui trabalhar pelo resto do dia. Alguns dias depois, quando as as vendas gerais foram abertas, corri pra pegar meu passaporte para os dois dias, o que dava direito não apenas aos dois dias do festival, mas a alguns shows de aquecimento pela cidade.

Primavera na Cidade
Nos dias que precederam o festival rolou diversos shows pela cidade, totalmente gratuitos para quem adquiriu o passaporte. Consegui um par de ingressos pro show de quinta, que acabei indo sozinho devido a ninguém que eu conhecia ter se interessado ou poder ir. Dos shows que rolaram na Audio, só perdi a banda de abertura, vi:

- Black Pantera
- Crypta
- Ratos de Porão
- Dead Fish
Os melhores shows com certeza foram os do Ratos de Porão e Dead Fish, agitei pra cacete, Crypta tinha recém lançado seu álbum de estreia, que eu gostei bastante, mas no ao vivo parecia que cada música era a mesma música, um problema comum de bandas muito extremas. Black Pantera também fez um bom show, gostei da performance deles mesmo não conhecendo nada do trabalho deles.

Dia 1
Sábado, no primeiro dia, já acordei ansioso, o tempo foi ótimo para os dois dias, com um clima agradável durante o dia e um pouquinho de frio a noite. Chegar no sambódromo do Anhembi foi super fácil de metrô, apesar de ter ônibus gratuitos saindo da estação Tietê, preferi descer no Carandiru e ir a pé até lá (gosto de andar), fiz esse trajeto os dois dias, foi super de boa, e muito mais próximo do que parecia no mapa.
Assim que cheguei, antes dos primeiros shows começarem, aproveitei pra andar por todo o local e saber onde ficava cada coisa, pra mais tarde não perder tempo procurando as coisas. Achei os preços das comidas ok, aquele valor de evento mesmo, o legal é que tinha bastante variedade de tipos de comida, não apenas os famosos pasteis e hamburguês, tinha comida vegana, massas, pizza, etc, e a área dos food-trucks foi ótima, foi onde comi a maior parte das vezes, deu pra encher a barriga pagando relativamente pouco, muitas opções neles eram mais acessíveis que na área reservada de alimentação.

Próximo do palco Elo ficava a área da loja de merch oficial, onde tentei resistir ao máximo, mas acabei comprando uma camiseta do evento hehehe, bem básica mas eu adoro ela. Peguei também um dos três estilos de copos reutilizáveis que estavam sendo distribuidos, vi onde eram os cinco pontos de água e parti para os shows.
Primeiro fui no DJ Set da Badsista, que foi bem legal, só rolou músicas bem pra cima mesmo, devo ter pegado uma brisa por tabela de tanta maconha que estavam fumando num lugar fechado. De lá parti pro Helado Negro, não conhecia e acabei adorando o show, um som bem minimalista e introspectivo, do jeito que eu gosto.

O show da Björk tinha tudo pra ser impactante, mas eu acabei detestando! Me sinto confessando um crime escrevendo essas palavras, mas pra mim não deu, de todas as músicas que eu ouvi, pois sai na metade, eram arranjos diferentes das versões originais, tinha uma orquestra inteira no palco, e o maestro estava super estiloso vestindo um Kilt, mas infelizmente nada conseguiu me prender no show, simplesmente não curti como ficaram as músicas, ai sai na metade, tanto é que nem tirei fotos.
No palco Beck’s fiquei pra ver o show do Interpol e do Arctic Monkeys, consegui pegar um ótimo lugar próximo do palco por ter chegado cedo, o show do Interpol foi tudo que eu esperava deles, já sabia que eles não tinham uma performance de palco mas as músicas deram conta do recado, adorei o reportório escolhido. No meio tempo até o próximo show, os telões transmitiram parte do show da Mitski, atitude bem legal da produção, ajudou a combater o tédio e cansaço de ficar parado lá esperando o próximo show.

Arctic Monkeys ao vivo foi como viver um sonho acordado, eu AMO essa banda e até me esqueci completamente que estava cansado, com fome e com as costas doendo. Diferente do Interpol, tá ai uma banda que sabe performar ao vivo, o canastrão do Alex Turner cantando as músicas com pausas inesperadas e em tempos ligeiramente diferentes das gravações (reza a lenda que ele não gosta que o público fique cantando as músicas, meu bem, tu não conhece o povo brasileiro mesmo né hehehe), algumas pessoas não gostaram, mas eu adorei, deu um toque diferente nas músicas que eu tanto ouvia deles e a poder do ao vivo elevou tudo a décima potência, foi um show espetacular pra mim.

Depois do AM, atração principal do dia, muitas pessoas foram embora, mas ainda tinham duas atrações que queria ver e sai correndo (literalmente) pro show do Beach House, apesar de já ter visto, é outra banda que eu amo e felizmente só perdi a primeira música, a performance deles aqui foi completamente diferente da que eu vi há quase dez anos antes no Cine Jóia, o show foi completamente rock’n’roll e pulsante, tinha bateria acústica ao vivo com a dupla, o que tornou as músicas muito mais pesadas, que surpresa ver o casal Victoria Legrand e Alex Scally rockeiros pra cacete!

Por fim, quase sem energias mas ainda persistindo, comprei um hot-dog maravilhoso num food-truck (ou era a fome? Honestamente não sei dizer hehehe) e fui finalizar o dia com o show do Boy Harsher. Logo na primeira música, a vocalista Jae lançou a máxima “Eu sei que vocês estão cansados, mas devo dizer que nossas músicas foram feitas pra se dançar, DANÇAR ok? Estão ouvindo ai pessoal da arquibancada??”, levei o aviso pro coração e devo ter tirado energia do cu, mas assim que terminei meu hot-dog (o pedacinho final deixei cair no chão, QUE ÓDIO!) fui pra plateia dançar, ótimo show pra finalizar o primeiro dia do festival.
O saldo do dia foi:
- Badsista (DJ Set)
- Helado Negro
- Björk (metade do show)
- Interpol
- Arctic Monkeys
- Beach House
- Boy Harsher
Voltar pra casa às duas e meia da madrugada foi surpreendente fácil, até pensei em voltar de Uber, mas já imaginei a disputa que seria conseguir um motorista, felizmente uma das vantagens de se morar numa cidade grande como São Paulo é o transporte público noturno, usei da minha expertise de nativo pra pegar o ônibus para o Terminal Pinheiros uns dois pontos antes de onde o pessoal estava se aglomerando, assim consegui voltar sentado. De Pinheiros peguei outro ônibus até o terminal Jabaquara, e do Jabaquara um último ônibus até a minha casa, que me deixou na rua de cima, bem pertinho. Cheguei em casa próximo das 4 da madruga, tomei um banho rápido e fui dormir pro próximo dia.

Dia 2
No seguinte dia usei a mesma tática do primeiro, cheguei cedo pra poder comer em paz, aproveitei pra pegar os outros dois designs de copos reutilizáveis e completar a coleção e depois de passear por lá, fui no primeiro show do dia, Raveena, outra artista que não conhecia e me surpreendeu positivamente, adorei a performance e suas músicas ao vivo pareciam bem mais poderosas em relação as versões de estúdio que eu ouviria depois. Em seguida fui ver o show do Maglore, que achei desnecessariamente alto demais, outra banda que não conhecia mas gostei do show, bem rock’n’roll.

O show do Terno Rei foi bem especial, a banda havia lançado no início do ano o ótimo “Gêmeos” o excelente álbum anterior “Violeta”, então o setlist foi hit atrás de hit, no total rolou quase a discografia inteira dos caras ao vivo, tocaram dez das dozes músicas de Gêmeos e sete as onze e Violeta, baita show!

Saí correndo pra ver o show da Japonese Breakfast, no ano passado ao show ela havia lançado um dos melhores álbuns do ano, “Jubilee”, estava na maior hype pro show dela, o show foi cheio de energia e bem rock alternativo, algo bem diferente do que se esperar da sua discografia, que contam majoritariamente com músicas mais intimistas e introspectivas. Também acabei me apaixonando pelo baterista da banda, meu deux como era lindo, a cada close do telão, era um suspiro que eu dava hehehe.

O show da Jessie Ware foi completamente surreal, após o show dela seria a atração principal do dia, Travis Scott, então já estava rolando uma aglomeração bem diversificada na plateia, metade dos héteros esperando o show do Travis e metade de gays esperando o show da Jessie, eu já estava num bom lugar relativamente próximo do palco, mas assim que ela entrou e começou a primeira música, rolou uma comoção das gays empurrando os héteros folgados (um empurra-empurra bem violento diga-se de passagem, foi o que mais me surpreendeu kkkkk), era hora do público LGTBT+ se divertir! Aproveitei a muvuca pra chegar bem próximo do palco, e curiosamente os héteros entenderam o recado, tive até um espacinho bacana pra dançar! O show dela foi maravilho, tocou “What’s Your Pleasure?” quase na integra, o melhor disco lançado em 2021 na minha humilde opinião, não parei de dançar o show inteiro, até a música mais baladinha dela foi uma versão remixada mais acelerada, um dos melhores shows do dia!

O show da Lorde foi absolutamente gigantesco, o único que não consegui um lugar mais próximo do palco, o que felizmente não comprometeu em nada a magia do espetáculo, o palco tinha um grande relógio solar que ia mudando ao passar das músicas, absolutamente mágico, rolou participação da Phoebe Bridgers, e tentei segurar as lágrimas enquanto ela conversa com o público antes de Liability, mas assim que a música começou não consegui segurar, e depois ainda teve a pancada mais violenta do show, a sequência matadora de Super Cut, Perfect Places e Green Light, bicho, até hoje não sei como sobrevive a esse show, foi um dos mais mágicos pra mim.

Depois da Lorde, peguei metade do show da Arca, um show incrivelmente violento (sonoramente), fiquei surpreso, apesar de ainda estar anestesiado pelo show da Lorde. Aproveitei o tempo até o show da Caroline Polachek pra comer e pegar um lugar legal na arquibancada, por falar nela, ela conseguiu o que eu achava impossível, fazer o melhor show de todo o festival! Eu fiquei completamente hipnotizado do início ao fim, ela ainda não tinha lançado seu excelente segundo álbum, mas tocou algumas músicas que saíram nele posteriormente, a técnica e potência vocal da gata foi algo que parecia sobrenatural, durante a música “Door”, a galera acendeu as lanternas dos celulares e parecia que eu estava em outro planeta. Até hoje sinto um arrepio quando penso no que senti vendo aquele show, Caroline sabia que tu é perfeita!

E por fim, finalizei o segundo dia com o show da Charlie XCX, que havia lançado o excelente “Crash” na época, começou nada mais nada menos com minha música favorita do álbum, “Lightning”, novamente parecia que eu estava tirando força do cu pra dançar às uma da madrugada, dancei bastante, descobrir ótimas músicas dela que não conhecia, mas depois da fatality que tomei na Caroline Polachek antes, ver ela performando usando playback me fez perder um pouco do tesão e da energia acumulada, apesar do início fortíssimo do show. Analisando em retrospectiva, faz sentido o uso do playback, a gata agitou pra cacete e não parava quieta, obviamente seria impossível uma performance vocal a altura de suas músicas, o problema é que o show anterior me alçou aos céus, e cair de cara no chão não foi a melhor das experiências, não foi um show ruim de forma alguma, foi apenas um bom show, o problema é que depois de um show maravilhoso, um bom show parece um show ruim.
O saldo do dia foi:
- Raveena
- Maglore
- Terno Rei
- Japanese Breakfast
- Jessie Ware
- Lorde
- Arca (metade do show)
- Caroline Polachek
- Charlie XCX

Voltar pra casa foi o mesmo esquema do dia anterior, curiosamente consegui chegar ainda mais cedo em casa.
Pequeninas e grandes decepções
Eu já estou acostumado a fazer as coisas sozinho, cinema, comer, show, balada, não importa, se quero muito ir ou fazer algo coisa, não me limito a ter a presença de amigos pra fazer, a vida é uma só galera, bora viver! Dito isso, infelizmente acabei me decepcionando com um pessoal que conheço e foi no festival. No primeiro dia, tinha combinado de me encontrar com um amigo, pois ele iria apenas no sábado, e domingo, com outros dois amigos, que por sua vez iriam apenas no domingo, tomei bolo de ambos!

O que mais me pegou não foi o bolo em si, mas a completa falta de responsabilidade emocional de ambos, no sábado, fiquei mandando mensagem o dia inteiro a espera desse amigo, pra dias depois ele responder falando que foi com uma garota e talz, bicho, PORQUE TU NÃO ME AVISOU SEU DESGRAÇADO??? Será que ele realmente achou que eu ficaria de vela no rolê?? Eu sendo um marmanjo de trinta anos nas costas, se enxerga bicho!! No domingo, outros dois “amigos” não respondiam minhas mensagens, mas não paravam de postar stories no evento, cara, se tu não quer mais minha presença ou mudou os planos, o que for, bastava me informar, não sou a pessoa que vai acabar com a amizade por causa disso.
Apesar disso tudo, o pior de tudo pra mim foi perder o show da Sevdaliza, que estava no mesmo horário do show do Interpol, eu tive uma escolha, colar no Interpol e já ficar lá pra pro Arctic Monkeys ou ver ela e ficar longe no AM, já deu pra perceber que escolhi a primeira opção, mas até hoje me arrependo disso, pois apenas um ano e meio depois Interpol voltou ao Brasil num show só deles, eu poderia muito bem ter visto a Sevdaliza, já que ela estava no seu auge (minha opinião, eu não gostei de absolutamente nada do que ela lançou depois do Raving Dahlia) e depois ver Interpol com um repertório muito maior, cara, até hoje fico pensando nisso, mas enfim, escolhas hehehe.

Icônico e lendário
O saldo dos três dias de shows, contanto com o primavera na cidade foi absolutamente insano, um total de VINTE shows, foi absolutamente fantástico, até hoje o evento é amorosamente lembrado, principalmente depois do quase fiasco da edição seguinte, que também fui e pretendo falar aqui futuramente.
Foi aqui que acho que a ficha do poder dos festivais de música finalmente caiu pra mim, apesar de ser completamente compreensível só colar em show que você conhece as bandas e artistas, principalmente levando em consideração o valor dos ingressos, aqui ficou muito claro que não é um evento apenas para ver nossos artistas e bandas favoritos, mas para descobrir novos também, adorei toda a experiência de conhecer novas bandas com toda a potência de suas performances ao vivo.
O Primavera Sound São Paulo 2022 foi uma verdadeira celebração da música, e estou ansioso pelo o que a edição de 2026 tem a nos oferecer.
