CryptoRave 2026

Em sua décima edição, a Cryptorave aconteceu no último dia 08 e 09 desse mês, novamente na biblioteca Mario de Andrade, no centro de São Paulo, o que foi ótimo, além do espaço ser grande, lindo e bem estruturado (com isso quero dizer com muitos banheiros e bebedouros), é de muito fácil acesso, com diversos estabelecimentos 24 horas ao redor pra quem quisesse tankar as 24 horas de evento, o que não foi o meu caso, apesar de ano passado eu ter aceitado o desafio, esse ano voltei pra casa a noite e retornei ao evento na manhã do dia seguinte, deux sabe que minha cabecinha precisava de um cansaço do estresse do trabalho, já que o evento começou sexta a noite.
Décima edição
Eu queria muito ter me voluntariado nesse edição, como falei na edição anterior, dá tranquilamente pra ajudar na construção do evento e curtir ele, infelizmente, o “destino” tinha outros planos pra mim, primeiro, não consegui contribuir com o apoio financeiro do evento, as contas pesaram mais do que eu esperava esse início de ano, o que foi uma merda, eu queria DEMAIS a caneca que eles tinham em uma das categorias de apoio, não existe uma instância na qual ser pobre não é uma merda bicho.
Bem, se não pude fortalecer financeiramente, ao menos eu poderia ter fortalecido com minha mão de obra me voluntariando, novamente o “destino” me pregou uma peça, rolou uma demissão e duas férias no meu trabalho, justamente nos meses que meu trampo fica particularmente infernal, o resultado foi dias e dias trampando papo de dozes horas, acumulo insano de atividades e prazos impossíveis, obviamente o burnoutzinho veio com tudo, perdi o prazo de inscrições para voluntários e honestamente, quase que não colo esse ano.
Mas como quem quer dá um jeito, consegui dar uma boa descansada na semana do evento pra poder ir, esse ano, ao consultar a programação, decidi que ficaria do inicio do evento até às 23 horas, voltava pra casa, e retornava do dia seguinte às 10 horas, e foi exatamente o que eu fiz. Esse ano a inscrição gerava um QR Code, o que agilizou tremendamente a entrada ao evento, foi ai que rolou a primeira surpresa da noite, a pulserinha desse ano é de pano, tipo aquelas de festivais de música, achei chiquérrimo, deu um toque todo especial.

A mesa de abertura foi um remember dos mais de 10 anos de evento, apesar de um dos convidados não ter comparecido, sobrou histórias pra contar, foi bem legal saber as origens e perrengues dos primórdios desse evento. Após a abertura, a primeira palestra que colei foi sobre bloqueio de anúncios, onde o palestrante deu um contexto histórico da tecnologia, principais ocorrências de como empresas e agentes estatais usam anúncios para rastrear os usuários, muitas vezes sem o consentimento e ilegalmente, além de dicas de como começar.
A seguir colei na palestra, ou melhor, atividade criativa chamada “mal-estar digital”, onde a organizadora distribuiu papeis e canetas aos participantes para expressar seus mal-estares digitais, e durante uns 10 minutos ela citava frases e palavras para “ativar” nossa memória, algumas pessoas desenharam, outras escreveram, e após esse início, foi feita uma roda de conversa onde qualquer pessoa poderia mostrar seu papel e expor em voz alta seus mal-estares, bicho, que ideia sensacional, esse era o tipo de atividade que poderia facilmente duras papo de umas três horas! Infelizmente só teve 50 minutos, mas mesmo assim foi o máximo.
Continuei no mesmo espaço para a próxima palestra, o guia para criar uma rede transhackfeminista latinoamericana, essa palestra foi metade em português e metade em espanhol, já que contou com palestrantes da Argentina, Bolivia e Peru. Elas contaram a história de como surgiu espontaneamente uma rede de ativistas transfeministas e o que elas aprenderam com essa experiência para compor esse guia, a parte mais interessante foi que no meio da palestra, após elencar os quatro passos (Conectar-se, Estruturar, Encontrar-se e Construir o Futuro), os participantes foram convidados a se dividir em grupos para se conectarem, foi interessantíssimo pois meu grupo ficou bastante diverso, haviam dois profissionais de TI (eu e outro dev), dois estudantes de história, uma profissional do sexo (sério hehehe), e uma publicitária e um cara gringo que não entendia nada em português mas se comunicou em inglês. Infelizmente só deu tempo da gente se apresentar mesmo, após isso uma pessoa de cada grupo compartilhava as impressões dessa experiência. Ao final da palestra, elas compartilharam um link para um grupo do Signal para quem quisesse somar nesse rolê, simplesmente adorei, quem sabe faz ao vivo mesmo!

Ainda tinha muita coisa que eu queria ver, mas como falei, precisava descansar essa cabecinha explorada pelo capitalismo dependente brasileiro. Sai do evento às 23 horas e levei praticamente uma hora para chegar em casa, um verdade milagre da noite paulistana. Tomei um banho rapidinho e fui dormir pra acordar cedo e voltar para o evento. No dia seguinte, acordei cedo, tomei meu café, fiz um lanchinho pra levar e voltei para o evento, onde fui direito para o prédio da hemeroteca para a primeira palestra do dia.
A primeira palestra do segundo dia foi sobre cuidados digitais para ativistas, nessa palestra, totalmente em espanhol, a palestrante Peruana do coletivo Mujeres Dispara compartilhou as experiências que levaram a criação da códiga rebelde, falou com a tecnologia anda sendo usada para oprimir e silenciar grupos e como elas vem usando tecnologias para se organizar e contra-atacar. Coloquei meu espanhol a prova nessa palestra, pois ela falava MUITO rápido, mas consegui entender 95% do que foi dito! 😮💨
Na mesma sala, já fiquei para a palestra seguinte, onde a Anna e só compartilhou diversos dados e deu o contexto geral e o cenário atual do software livre. Essa foi uma daquelas palestras que deu uma tristeza ver de onde viemos e para onde estamos caminhando, foi discutido as diferenças sobre código aberto e software livre e no final rolou uma trocação de ideias bem legal com diferentes perspectivas sobre o tema, terminando num tom mais esperançoso.
A caminho da próxima palestra tive uma feliz surpresa, no hall da estatuá, fizeram duas especieis de intervenções artísticas referente a duas palestras que rolaram na noite anterior, o mural do silenciamento ficou próximo ao elevador, de um lado uma coleção de comentários que a palestrante Laura Rodrigues já recebeu em suas redes sociais, contendo o puro suco do mansplaining e gaslighting que você pode imaginar, com alguns dados sobre o tema, e do outro lado, a continuação do mural, com diversas folhas em branco e uma caneta, com a pergunta “Você já ouviu algo assim?”, quando passei por lá, já haviam algumas respostas.

Logo ao lado havia um pequeno espaço do mal-estar digital, sabe todas aquelas folhas que os participantes fizeram na atividade? Todas foram expostas em um canto, onde havia um par de cadeirinhas e uma mesinha com algumas decorações, diversos pendrives e um radinho a pilha com entrada usb. Qualquer interessado poderia pegar qualquer um dos pendrives, conectar no radinho e ligar, pegar os fones e ouvir diversos relatos em áudio sobre o tema da atividade. Isso é o tipo de atividade que eu não dei bola nas minhas primeiras cryptoraves mas nessas duas ultimas edições foram as partes mais interessantes pra mim, amei a ideia de interagir fisicamente com o espaço, aliás, uma prachetinha com caneta e folhas em branco também estava disponível para quem quisesse compartilhar seu mal-estar digital. Queria muito poder ter tido tempo de ouvir um pendrive aleatório e compartilhar meus pensamentos, mas apenas li os cartazes mesmo.

A palestra seguinte foi sobre a interessante revista/site Tocaia, os palestrantes contaram como surgiu o coletivo e a criação da revista física e online, qual a filosofia e os temas abordados nessa primeira edição, quase comprei a versão física, mas tive que sair no final da palestra, durante a rodada de perguntas pois a próxima palestra era a que eu mais queria ver, sobre Hardening de sistemas tendo como base o Debian 13, que não coincidentemente é o que eu uso no meu servidor caseiro (que aliás já estou fazendo um post sobre), essa palestra foi simplesmente sensacional, o puro suco da administração de sistema nível paranoico! Amei descobrir diversas funcionalidades que eu não fazia ideia que existiam e outras que eu até já tive contato, mas nunca havia dado bola, meu lado nerdola saiu feliz da palestra, o palestrante Deivis compartilhou o material no seu linkedin.
Voltei ao prédio principal e peguei metade da palestra sobre whistleblowing do coletivo CTRL+Z (adorei o trocadilho no nome), apesar de ser mais voltada a jornalistas, foi bem interessante ouvir a história da Daniela e da Tatiana, e o lançamento do site para denúncias anonimas contra bigtechs, site esse que inclusive está disponível na rede tor também. Pra quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre a história dela e como surgiu a ideia do coletivo, tem um ótimo episódio do podcast escafrando falando sobre.
A palestra que queria ver às 15hrs infelizmente não aconteceu, então corri novamente para o auditório pra ver sobre o tema do colonialismo de dados na educação brasileira, palestra super interessante sobre como o google e a microslop dominam e dividem a infraestrutura da educação brasileira, e em seguida fui na palestra de lançamento da campanha “quem vê cara, não vê permissão” sobre o perigo do uso de dados biométricos, principalmente mas não apenas sobre o uso de reconhecimento facial tanto no domínio público como no privado, trazendo diversos dados sobre o tema super importante, tanto que enquanto estava escrevendo essa postagem, o coletivo CTRL+Z soltou um vídeo no seu instagram sobre com um jornalista negro teve não apenas sua imagem usada sem consentimento como vem sendo acusado de crimes que nunca cometeu, infelizmente um exemplo perfeito do porque essa campanha é tão importante.

Já no final do evento, pensei em ficar para a mesa de encerramento, mas o auditório estava abarrotado de gente, tanto embaixo como na parte superior, e estava um calor desgraçado lá dentro, nem parecia que nas próximas 24 horas a temperatura iria cair quase 20º! Me dei por vencido e resolvi que veria a live quando fosse disponibilizada no youtube, aqui está o link, a quem interessar.
E essa foi a Cryptorave 2026, sempre trazendo temas interessantes e pertinentes, esse anos ao invés de diversas palestras de 1 hora, a maioria foi de apenas 50 minutos, com algumas outras tendo 1 hora e 50 minutos de duração, achei bem interessante essa dinâmica, assim não ficou com o evento abarrotado de diversas palestras com temas muito semelhantes. Particularmente, venho adorando as atividades e instalações artísticas, inclusive teve muitas outras que não deu pra ir, elas parecem ser uma ponte natural entre os temas técnicos e políticos que infelizmente muito ainda acreditam não estarem interligados. Outra coisa que eu adoro no evento como um todo é a visão latinoamericana e partir do sul global que é passada, pra quem como eu acompanha a área da tecnologia (até porque eu trabalho nela!) a gente é esmagado com a perspectiva do norte global, principalmente dos estragos unidos da américa, com realidades, filosofias e vivências que são quase que diametralmente opostas as nossas, ver como nós latinoamericanos lidamos com isso é abrir a mente a novas perspectivas, reconhecer reais e novos problemas e rejeitar soluções universalistas e simplistas, a realidade é muito mais complexa, e ver as experiências das camaradas dos países vizinhos foi simplesmente inspirador.

Se quiser saber mais sobre o evento e edições anteriores, visite o site da Cryptorave e também sua página do instagram.
“Destruir as bigtechs antes que elas nos destruam”