Estranho Verão

Choveu durante o verão inteiro, posso estar exagerando, mas consigo contar nos dedos das mãos quantos dias de céu limpo e ensolarado vivenciei nos últimos três meses. O verão sempre foi um período de chuvas aqui em São Paulo, de torrentes de 15 à 30 minutos que derrubam árvores e alagam ruas e avenidas à chuviscos e garoas de algumas horas, dias chuvosos constantes assim é algo que não acontecia aqui faz pelo menos muitos anos.
Algo mudou, no início do verão comprei um novo perfume para os dias quentes que pouco apareceram nesses últimos meses. Mudei minha rotina de treino e surpreendentemente ganhei peso. Separei roupas que não me servem mais para doação e outras velhas para jogar fora. Preciso comprar novas cuecas. Quase zerei meu cesto de roupas sujas, consigo lavar tudo que uso durante a semana e deixar secando por alguns dias, apesar das chuvas, ainda venta bastante aqui.
Notei que as cordas do meu violão estão todas enferrujadas, faz meses que não toco nada. Nos raros dias de sol lavei roupas de cama, tiro a poeira da casa e passo pano no chão, e por alguns dias a casa toda cheira a lavanda. Penso em acender um incenso mas eles acabam, preciso comprar mais. Chove enquanto escrevo essa postagem.

Pretendo me mudar, se aprovarem minhas férias em Agosto, me mudo para morar junto com minha namorada, que agora é minha noiva. Decidimos noivar e casar em algum momento no civil. Ela me mostrou os valores médios de uma pequena festa de casamento e quase tive um ataque de pânico, acho que ela percebeu. Não podemos apenas nos casar? Confesso, estou um pouco apavorado. Sou um homem simples que gosta de algumas rotinas. Na minha cabeça o amor é muito mais simples.
No final de janeiro iniciei um desafio pessoal de ficar longe das redes sociais que mais uso, desativei o bluesky durante todo o mês de fevereiro, onde eu ficava por mais tempo, mas deixei as outras redes ativas, durante esse período, só usei as redes no trabalho, uma das vantagens de se trabalhar sem quase nenhuma supervisão. Tirei do papel um projetinho pessoal de fazer um servidor caseiro, agora tenho um servidor de música e de DNS com bloqueio de anúncios em casa, investi mais tempo do que eu gostaria de admitir, mas no final deu certo, devo escrever sobre isso em breve.
Meu servidor caseiro roda Debian 13.
Foi surpreendente a sensação de que me pareceu que “ganhei tempo”, nos primeiros dias não sabia bem o que fazer com esse tempo que “ganhei”, passei principalmente ouvindo música, ouvindo mesmo, prestando atenção ativamente, sem fazer nada além de ouvir música. O restante do tempo passei passando raiva brincando de configurar o servidor. Peguei alguns livros curtos pra ler e baixei outros tantos. Perdi, ou melhor, ando perdendo a vergonha de tirar a máquina fotográfica pra tirar uma foto quando vejo uma imagem por ai, infelizmente devido ao aguaceiro que não para cair do céu, também ando evitando me arriscar com ela na chuva.
“Abandone a vergonha. Existem emoções mais interessantes de serem sentidas”. Sabedoria do Tumblr.
Tive a triste constatação de que não assisti um misero filme em fevereiro, nada, absolutamente nada. Assino a Mubi, Paramount Plus e Universal Plus (lá tem um reality shows bem podreira que eu adoro, mas só costuma assistir no final de semana enquanto preparo o almoço) e ainda assim não assisti nada, pretendo cancelar esses dois últimos e ficar somente com a Mubi, onde costuma ter as coisas que mais gosto. Sou muito chato com filme, detesto ficar pausando, detesto assistir pelo celular, gosto de reservar um tempo pra assistir algo numa catada só, confortável em casa com todas as luzes apagadas, com atenção total ao filme. Sem distrações. No início desse mês tentei mudar isso, comecei a assistir Licorice Pizza que já estava na minha lista faz algum tempo, na metade do filme deu a hora de ir dormir, continuei no dia seguinte pela celular a caminho do trabalho, e que experiência horrível, duas estrelas e meia. Reassisti todo o filme novamente quando cheguei em casa. Três estrelas e meia, rituais existem por um motivo.
Esse verão me lembrou do mais triste inverno que vivenciei, foi antes da pandemia, não me lembro exatamente quando, mas foi o mais anêmico inverno de São Paulo. Dias de calor em pleno inverno, eu num trabalho de merda, foi um período bem porcaria, um ano de calor sem trégua, pois o outono daquele ano também foi fraco. Eu adoro o frio, amo a estação do outono/inverno, quase chorei de alegria ao ver neve caindo do céu pela primeira vez na Argentina, brinquei que nem criança. Adoro o frio, mas detesto passar frio, adoro me aquecer tomando uma bebida quente, adoro perfumes quentes e doces.

O período longe das redes acabou, mas não sinto mais vontade de postar como antes, muitos anúncios e páginas recomendadas e poucas pessoas que realmente gosto de acompanhar aparecendo pra mim, algumas inclusive desativaram ou deletaram seus perfis, que pena, não quero perder contato com elas, mas entendo a motivação. Agora uso as redes mais ativamente, e só uso no trabalho ou quando realmente não consigo fazer outra coisa, só vejo storys e postagens de quem eu gosto de acompanhar, curiosamente essas pessoas estão postando cada vez menos.
Me autointitulo uma criatura das trevas, da noite e do frio, mas senti saudades dos dias quentes, nos raros dias de sol, caminhava sem rumo por ai, inventando lugares para ir e coisas para comprar, ficar nem que seja apenas alguns minutinhos sentindo o sol na pele, até as criaturas das trevas precisam de um pouco de luz de vez enquanto.