Transições
Agosto foi um mês de mudanças, sai de um lugar que vivi por quase toda minha vida, praticamente trinta anos, para outro no qual era quase totalmente novo, apesar de eu já conhecer e frequentar há mais de cinco anos.
Não tive muito o que embalar, tenho poucas coisas, além das minhas roupas, um computador, uns instrumentos musicais, um gato. Apenas duas viagens foram necessárias pra levar tudo que eu preciso. Nenhum dos poucos móveis e eletrodomésticos foram levados, o que não será descartado será doado, até tentei vender algumas coisas em bom estado, sempre pensei que uma geladeira, um fogão e uma máquina de lavar se venderiam sozinhos, mas ninguém se interessou, engraçado, coisas que me foram tão difíceis, hoje ninguém quer.
Tenho certa ansiedade de viver minha nova vida, conhecer os arredores, fazer as tarefas domésticas a dois, voltar a me exercitar regularmente, mas ainda tenho pendências da minha antiga vida. Queria simplesmente abandonar o que não me serve mais e abraçar por completo minha nova realidade, mas ainda preciso me livrar de tudo aquilo que não cabe em minha nova vida, hábitos, móveis, pintar a casa antiga, prometi para Dona Maria, enquanto isso concilio minhas novas responsabilidades a minha nota rotina.
Vou combatendo a ansiedade pacientemente, “movendo-se devagar, consertando coisas”, faço os exames médicos a 20 quilômetros do meu atual endereço, num final de semana pinto as paredes da cozinha, em outro troco o interfone, depois pinto duas paredes da sala e acabou a tinta, troco os bicos injetores de um fogão, faço uma faxina geral, instalo uma tela na porta da varanda, preciso comprar mais tinta.
Tento a sensação de que minha antiga vida esteja impedindo a nova de prosseguir, parece que quando mais eu avanço, mais difícil fica. É mesmo tão difícil assim encerrar as coisas, ou é apenas eu, com medo do que há por vir, enrolando o fim das coisas?
