Feliz dia da visibilidade bissexual
Eu não sei se ficou claro pela minha escolha de cores nas páginas do blog ou pela estilização do nome do mesmo no topo da página, mas quem aqui escreve é uma pessoa bissexual, e setembro, além de ser o mês do meu signo, é o mês da visibilidade bissexual, tendo como dia oficial hoje, dia 23 de setembro. Em comemoração a data, trago algumas indicações, um livro, dois filmes e algumas músicas que acho que tem tudo a ver com o tema.
Um livro
Bi - Notes for a Bisexual Revolution
TítuloShiri Eisner
Autor(es/as)2013
AnoHachette UK
EditoraFeminismo, Ciências Sociais
GênerosTento me manter a par das discussões sobre tema, infelizmente, ao menos do que diz respeitos ao que é discutido nas redes sociais, parece que não rolou uma evolução (ou pior, retrocedeu), os mesmos “não somos confusos!” por ai, putz, ainda nessas ideias? Pros de algum tempo no rolê como eu, com as questões mais básicas superadas, acho um pouco cafona! Tá, entendo, sempre tem a galera nova chegando, mas é aquilo, não ando com muita paciência pra quem está começando 🙃.
Pensando nisso, recentemente li um livro que estava há alguns anos na minha fila de espera, “Bi - Notes for a Bisexual Revolution”, da Shiri Eisner, e que livro bom! É foda tu enrolar tanto pra ler um livro e depois descobrir que ele é muito bom, pois abrange os principais temas do rolê e ainda expande com novas perspectivas, porém ainda tive essa triste constatação, o livro que já tem mais de dez anos, permanece (infelizmente) extremamente atual.
Ela parte de uma perspectiva radical e feminista, de baixo pra cima, da margem ao centro, o que foi uma surpresa muito agradável. O primeiros capítulos são definições básicas sobre o que é bissexualidade e suas outras nomenclaturas (pan e omni) e o que é monosexismo, a estrutura base da bifobia. A partir dai esses temas são abordados de forma mais especifica como privilégios, mulheres, homens, pessoas trans, raça e uma critica sobre o movimento LGBT atual. Para quem estava cansado de leituras mais teóricas, achei a escrita bem acessível e sem muita enrolação, o que é ótimo “pra quem tá começando” 🤭 hehehe.
O grande triunfo do livro é abordar o tema através da perspectiva subversiva da multiplicidade, rejeitando e desafiando o monosexismo e tomando pra si sim alguns “estigmas” que carregamos (tal qual rolou com a palavra “viado” que foi reapropriada pelos gays como um adjetivo positivo, desafiando a norma pejorativa do termo), foi surpreendente descobrir como pensamos e tratamos nossas pautas (digo nós, pessoas bi/pan/onmi) sob a ótica da singularidade binária e não pelo ótica da multiplicidade. Pra quem quer saber a história da definição de bissexualidade e os principais problemas e críticas do movimento, é uma ótima leitura, infelizmente até onde sei, apenas em inglês.
Dois filmes
Amores Imaginários
TítuloXavier Dolan
Diretor(a)(es/as)2010
AnoCanadá
PaísXavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider
Principais atoresRecentemente revi esse filme após sei lá, mais de uma década de quando o vi pela primeira vez, numa versão baixada de baixa qualidade na casa de uma amiga, mas nossa, revendo eu só relembrei como eu AMO esse filme, não tem jeito, Xavier Dolan é o maioral mesmo 💙❤️💜. O engraçado é que na época que vi e conversava sobre esse filme, quase ninguém gostava e tinham duras criticas sobre, particularmente nunca entendi e permaneço sem entender o porquê.
O filme é sobre um suposto triangulo amoroso, um casal de amigos Francis e Marie e um terceiro cara, Nicolas. Coloco suposto entre aspas pois o interesse “explicito” parte de Francis e Marie, onde é o foco da perspectiva do filme, já sobre Nicolas, nada se sabe além do que descoberto através a aproximação do vínculo de amizade entre eles, nunca fica claro qual é a desse cara de muitos amigos.
O principal tema aqui é “desejo”, toda a ambientação do filme gira em torno disso, as cameras lentas, as cores saturadas, a ótima trilha sonora. Conforme o passar do filme, é muito claro a intensidade do desejo dos personagens vai aumentado até culminar no conflito aberto da amizade deles, pra depois o processo se iniciar novamente com uma participação especial do meu queridinho Louis Garrel.
Apesar de não ser explicitamente sobre bissexualidade, eu adoro a ambiguidade do Nicolas, nunca se sabe qual é a dele, pois ele não age conforme se espera de uma pessoa hétero ou gay, tá ai a maior parte das criticas que ouvi desse filme, geral detestou esse personagem, aparentemente desafiar as noções de afeto binárias irritou algumas pessoas.
Passagens
TítuloIra Sachs
Diretor(a)(es/as)2023
AnoFrança
PaísFranz Rogowski, Ben Whishaw, Adèle Exarchopoulos
Principais atoresAssistir esse filme no cinema foi uma experiência deliciosa pra mim, vamos pensar um pouco no contexto de mídias (filmes e séries) sobre personagens LBGT+ dos dez anos que antecedem essa obra, basicamente temos o personagem gay/lésbica já que bis aparentemente não existiam naquela época, que precisavam lutar pra serem aceitos, que sofriam o pão que o diabo amassou para que se deux quisesse finalmente encontrar o amor ou a possibilidade de recomeço no final. Eu não sei você, mas principalmente depois de ter contato com a diversa filmografia LGBT+ dos anos 70, 80, 90 e 00, a onda de produções sobre o tema dessa década de 2010 é quase detestável, patética pra dizer o mínimo.
O que adoro nesse filme é que o personagem principal, Thomas, é o que alguns podem chamar de uma bi vilã, não necessariamente uma pessoa do mal, mas uma pessoa egoísta, manipuladora e que pouco se importa com o sentimento dos outros. O filme retrata um triangulo amoroso, Thomas, canalha do jeito que é, traí seu namorado Martin com uma mulher, Agathe, mas depois de um tempo e ver que o boy seguiu em frente, entra em crise e tenta reatar o namoro. Thomas é o típico cara que não quer largar o osso, quer os dois passarinhos nas mãos e acabam sem nenhum.
Depois de uma década de personagens bonzinhos, sofredores, ou pior, apenas o alivio cômico coadjuvante, ter um personagem não apenas LBGT+ mas BI e ser uma pessoal detestável é um refresco pra mim, um verdadeiro alivio que dificilmente as produções mainstream poderiam proporcionar, mas é justamente nisso que o lado “ruim” do filme deixa a desejar, pois Thomas segue quase que a risca a cartilha do estereotipo bissexual bifóbico, ele trai, não é confiável e aparentemente não sabe o que quer. Ainda preciso rever esse filme pra tirar melhores conclusões sobre ele.
Entendo que possa ser incomodo nós do labo B da sigla ver esse retrato de uma pessoa bissexual, mas ainda boto minha mão no fogo de que essa sim é uma boa obra, o filme trata de monogamia, infidelidade e responsabilidade emocional, o típico melodrama.
Uma playlist
E pra finalizar, preparei uma playlist com músicas que trazem uma energia bissexual latente. Ao pesquisar músicas para compor essa playlist, notei um triste padrão, a grande maioria é bem literal, contava com músicas de artistas declaradamente bissexuais ou que as músicas dissessem explicitamente sobre bissexualidade, bem, é um jeito de se fazer uma playlist, mas o resultado no geral foi uma salada de frutas que não foi do meu agrado.
Por isso preparei uma seleção de músicas que emanam essa energia, com letras mais interpretativas e subjetivas, do jeito que eu gosto, pare e sinta essas músicas, achei bem melhor do que simplesmente colocar uma música dizendo “é isso ai eu gosto de pau e buceta” tal qual um certo autointitulado hino bissexual da gringa canta por ai.
Como sempre pra quem não usa Tidal, deixei essa humilde seleção também no Deezer, Spotify e Youtube Music.