Morte e ressurreição de um cinéfilo
Seguindo a onda das minhas duas últimas postagens sobre livros e músicas, fiz uma breve seleção de alguns poucos filmes que vi nesse último semestre, mas ao revisar o texto, parecia que algo estava faltando, falei dos filmes e senti a sensação de algum (ou alguns) sentimento(s) que estou guardando não foram expressos num primeiro rascunho. Salvei e deixei esse(s) sentimento(s) maturando na minha cabecinha até entender o que era que ainda queria escrever sobre.
Algo não está funcionando
No início de março, fui dar uma olhada no meu Letterboxd e tomei um susto, havia assistido um total de “apenas” dois filmes nos dois meses anteriores, um no cinema e outro na TV, fiquei perplexo, como assim dois filmes?? Não me parecia “correto”, parei pra pensar, será que não havia esquecido de registrar algo? Sei lá, alguma coisa que estava passando na TV e parei pra assistir, e quanto mais pensava, maior o vazio ficava na minha memória, me lembrava perfeitamente desses dois filmes e nada mais, realmente, assisti a apenas dois filmes em dois meses.
Isso é um problema? Agora eu sei que não, mas na época me pareceu um, ao menos financeiro, parei pra fazer as contas, naquele período, eu assinava a Mubi para ver filmes e a Universal+ e Paramont+ por causa de um ou outro reality show ou série bem podreira que eram ótimos pra deixar rolando enquanto faço comida e arrumo a casa, ruído branco divertido. Percebi então que, de dezembro a fevereiro, por três meses completos, paguei a Mubi sem assistir qualquer filme por lá!
Prontamente me pus a mudar essa situação, recuperar o “tempo perdido”, abri minha lista de para assistir para ver quais filmes veria a fim de reduzir essa lista, mas logo percebi que seria um ato puramente mecânico e nada sentimental, ver filmes que em algum momento eram ou ainda são do meu interesse puramente para reduzir uma lista e aumentar outra, novamente parei pra pensar, pra quê? Então fiz o que qualquer dramático faria, cancelei todos os três serviços de streaming que assinava, o orçamento apertado com certeza influenciou na decisão, mas acredito que não foi o fator principal, eu realmente precisava rever minha relação atual com a sétima arte, ou como os modernos dizem, o “consumo de mídia”.

Sempre fui uma pessoa que não se importava com o que estava na boca (ou nos posts) dos outros, cresci no tempo em que se alugava VHS e posteriormente DVDs, naquela época lançamentos eram concorridíssimos nas locadoras, alguns filmes lavavam de semanas a até meses pra tu conseguir pegar, então nunca cai nessa pira de assistir o filme mais comentado do momento. Quando finalmente tive meu primeiro computador e ganhei acesso aos sete mares da internet 😉, ainda sim isso não mudou, muito pelo contrário, com acesso a coisas mais difíceis ou mesmo impossíveis de ver por aqui, descobri um mundo além de Hollywood.
Ainda sim não sou inume a propaganda, cai como um patinho na hype da Marvel, assisti todos os filmes de super-herói até o Ultimato, a maioria no cinema, depois disso o “encanto” estragou e atualmente tenho um ranço fudido desse tipo de filme, só de ouvir os nomes Marvel, DC ou Disney já sinto um ânsia de vómito. Infelizmente com isso adquiri um péssimo hábito, me limitar ao que estava disponível no serviço de streaming que eu estivesse assinando no momento, o pior é que durante o período de popularização deles e sem muitas opções no mercado, o catálogo era realmente muito bom e diversificado, ainda não existia o super processador jeito de se fazer filmes e séries (esse vídeo faz um discussão super interessante sobre esse problema).
De uns anos pra cá a coisa foi ficando muito zuada, nem vou me referir as práticas anticonsumidor que já são absurdas, digo o nível das produções originais mesmo, sejam filmes ou séries, caíram drasticamente, bem, filme e série porcaria tem desde décadas atrás, mas produzida em larga escala assim me parece algo novo, minha ficha caiu recentemente assistindo a alguns episódios soltos de Everwood que minha noiva estava vendo, mesmo sendo uma série sessão da tarde de televisão dos anos 2000, a qualidade no roteiro e produção era absurda, “Esse tem que prestar atenção”, comentário dela, bicho, esse não é um requisito básica de toda obra audiovisual? Ao que tudo indica, atualmente, não exatamente! A que ponto chegamos.
Desde então peguei pra ver algumas coisas que já estavam na minha lista de espera há pelo menos alguns anos, superei um ranço antigo, vi coisas mais recentes também, separei a seguir as minhas experiências cinematográficas mais divertidas e impactantes desse último semestre.
Alguns filmes que vi e adorei recentemente
O Agente Secreto
TítuloKleber Mendonça Filho
Diretor(a)(es/as)2025
AnoBrasil
PaísWagner Moura, Alice Carvalho, Gabriel Leone
Principais atoresPosso até ter sobrevivido intacto a hype do Ainda Estou Aqui (2024), assistindo esse apenas quando saiu no streaming, porém com minhas defesas psíquicas já enfraquecidas após uma campanha pelo oscar violentissíma, fiz questão de assistir O Agente Secreto no cinema, e putz, fui completamente surpreendido, quando falavam que era um filme da ditadura, esperava algo mais explícito como em Ainda Estou Aqui, mas o diretor inverte a já batida fórmula de filmes dessa época e deixa esse contexto com pano de fundo, praticamente oculto, algo que está lá, no qual se é falado sobre diversas vezes mas nunca tem seu nome dito de fato, dando um clima levemente opressor ao filme, sacada simplesmente genial.
O tratamento da imagem do filme é um show a parte, parece que foi gravado usando filme, as cores saturadas e vivas dão toda uma vida própria aos cenários, me senti transportado para aquela época. Adorei como elementos que os mais fresquinhos chamariam de filler, que eu prefiro chamar de encher linguiça, em bom português, na verdade adicionam vida ao contexto, a lenda da perna assassina por exemplo, nós ajuda a entender melhor aquele período no qual o filme se passa, mesmo não tem, objetivamente falando, nenhuma relação com a trama principal em si.
Esse é um típico filme parei pra sentir, apesar da trama principal ter um “desfecho”, muitas das histórias paralelas se encerram abruptamente no final do filme, dando aquele gostinho de relato de uma recordação. Filmaço!
Licorice Pizza
TítuloPaul Thomas Anderson
Diretor(a)(es/as)2021
AnoEstados Unidos
PaísAlana Haim, Cooper Hoffman, Sean Penn
Principais atoresEsse tá na minha lista desde que saiu, pura e simplesmente pelo fato das irmãs Haim estarem no filme, na real, a família inteira está lá, interpretando uma família com sobrenome diferente, bizarro! Ambientado (também) nos anos 1970, é praticamente um filme de amadurecimento (coming of age para os fresquinhos) duplo, um garoto adolescente carismático se apaixonado por uma garota/mulher mais velha, 10 anos mais velha, e ela por sua vez acaba se vendo embrigada com a atenção do garoto.
Eu não esperava absolutamente NADA da atuação da Alana, e não sei se foi por causa disso que me surpreendi muito com ela, todos os atores principais são ótimos, mas pra mim ela super carregou o filme nas costas, é muito interessante ver sua personagem carregando e lidando com as responsabilidades da vida adulta enquanto sua paixonite ainda está deslumbrado com vida e suas infinitas, mesmo que muitas vezes imaginárias possibilidades.
Novamente temos aqui uma fotografia levemente saturada e ruidosa cria um clima quente e aconchegante as cenas de um verão californiano, todo o filme parece um sonho de estar vivendo um momento muito especial da história, as participações especiais de Tom Waits e do Bradley Cooper dão o ar novelesco a trama, que apesar dos altos e baixos terminam num tom positivo. Esse é o segundo filme desse diretor que vejo (o primeiro foi o ótimo Uma Batalha após a Outra, 2025), estou gostando bastante dos trabalhos dele.
Eu Não Sou Tudo O Que Eu Quero Ser
TítuloKlára Tasovská
Diretor(a)(es/as)2024
AnoRepública Tcheca
PaísLibuše Jarcovjáková
Principais atoresEsse filme foi um achado do destino, acordei cedo num domingo, coisa raríssima, liguei a TV e navegando pela programação vi que esse documentário estava prestes a começar no canal Arte 1, e fiquei completamente encantado. Foi especialmente impactante pois tenho um pezinho na fotografia e recentemente havia comprado uma câmera digital.
O documentário retrata a história de vida da fotografa Libuše Jarcovjáková, na antiga Checoslováquia socialista no final dos anos 1960, do início da sua vida adulta, passando por suas visitas ao Japão e Alemanha Oriental, para de volta a sua terra natal até chegar aos dias mais recentes.
O mais surpreendente é que o roteiro nada mais é do que os diários da própria fotografa em diversos períodos de sua vida, apresentados de forma cronológica, não há gravações, apenas as imagens que ela fotografava em determinado período vão passando e dando contexto a suas falas e vice-versa, curiosamente gera o efeito totalmente contrário a monotonia, são relatos bastantes íntimos e confessionais, fiquei completamente impactado, as imagens estáticas elevam a narração a décima potência, 100% obrigatória para os amantes da fotografia e do leste europeu.
O Casamento de Muriel
TítuloP.J. Hogan
Diretor(a)(es/as)1994
AnoAustrália
PaísToni Collette, Bill Hunter, Rachel Griffiths
Principais atoresQuando penso em casamento, a primeira coisa que me vem a mente é a esposa, ter uma, todo o resto é secundário. Quando descobri quando que custa um festa de casamento, tive dois ímpetos:
- Cancelar tudo, isso é caro demais, é melhor continuar solteiro mesmo, esse tipo de coisa não é para pessoas como eu;
- Aceitar que nunca vou me recuperar financeiramente dessa situação e fazer com que ela ocorra da maneira menos traumática possível.
Vocês já podem imaginar que escolhi a segunda opção, e então tenho feito o que qualquer pessoa razoável faria, recorri a sétima arte pra tentar entender melhor esse papo de união de duas pessoas e tals, pedi dicas de filmes sobre casamento no meu instagram e surpreendentemente não fui completamente ignorado, recebi diversas indicações bem interessantes, alguns filmes que já havia visto e outros que nunca nem ouvi falar, colhi a lista de indicações e priorizei as de pessoas que “confio” no taco, comecei minha terapia lista de filmes de casamento com esse longa australiano dos anos 1990.
Muriel é uma jovem mulher fã de ABBA sem muitas habilidades sociais, ostracizada pelas colegas de ensino médio, vive em uma família apática e sonha em se casar, pra isso ela não mede esforços, mente, rouba o próprio pai e até mesmo se casa com um completo estranho! Sua vida muda ao reencontrar uma antiga amiga que é praticamente o inverso dela, elas se juntam e resolvem morar na cidade grande. Esse é aquele tipo de filme bem auto-astral e carrega um tom positivo por todo o filme, mesmo nas tragédias pessoais das principais personagens.
Amo os anos 90, mas rolou uma forçação de barra meio extrema aqui, tentaram pintar a personagem da Toni Collette com uma mulher feia e gorda, bicho, mas tipo, onde?? Eu só conseguia ver uma mulher linda e gostosa (me perdoem a objetificação), a cena em que ela e sua amiga estão cantando ABBA com o body branco me deixou maluco, tipo aquele meme do lobisomem rasgando a roupa saca? Hahahahaha De fato os padrões de beleza feminina são um tanto extremos mesmo, enfim, filmaço!
Crash - Estranhos Prazeres
TítuloDavid Cronenberg
Diretor(a)(es/as)1996
AnoCanadá
PaísJames Spader, Deborah Kara Unger, Elias Koteas
Principais atoresViva o cinema erótico!! Nada como superar um período cabisbaixo e de baixa energia com um filme que transpira tesão! Aqui Cronenberg realiza anti-tese de (quase) tudo que o cinema mainstream produz atualmente, se não estiver a par desse papo, tem um ótimo texto que fala um pouco sobre esse crescente fenômeno do cinema sensualmente e eroticamente estéril, “Todos são lindos e ninguém está com tesão”.
Baseado num livro de mesmo nome (que imediatamente entrou pra minha lista de próximas leituras) acompanhamos a vida de James e sua esposa após um acidente de carro, onde eles conhecem uns doidinhos com uma estranha tara em acidentes automobilísticos e acabam eles próprios desenvolvendo essa tara. Uma das coisas mais interessantes são como os personagens se relacionam, (aparentemente) não existe o conceito de traição aqui, James fica com outras pessoas, Catherine (sua esposa) fica com outras pessoas e ambos conversam sobre isso, tanto a sexualidade como seu relacionamento são fluídos (apesar de majoritariamente heterossexual existem algumas cenas timidamente homoeróticas) e abertos, o que manda aqui é o desejo, tudo escancarado de forma implícita.
Durante todo o filme rola uma interessante dicotomia entre a vida dos personagens, James tem um emprego formal, trabalha em ambientes corporativos e em sets de filmagem, ganha a vida dirigindo encenações, vive no topo de um prédio próximo a uma rodovia, longe de tudo no meio do nada. Seu apartamento é todo limpinho e arrumadinho, seu carro é moderno. Já Vaughan que procura expandir os limites do prazer através do extremismo de colisões entre máquinas, vive na noite, parece meio sujo, tem modos estranhos, anda num carro todo fudido, vive de favor na garagem de gente igualmente estranha, onde o espaço é meio apertado, meio bagunçado, estranhamente aconchegante, no coração da cidade.
Esse é um desses filmes estranhos mas altamente sedutores, particularmente catártico, recomendadíssimo para reacender a chama para tudo que é esquisito e/ou reprimido, chama essa que poucos tem a coragem de manter acessa atualmente. Assisti duas vezes em uma semana pois vocês não fazem ideia de como eu precisava disso! Viva o cinema erótico!!

Orgulho e Preconceito
TítuloJoe Wrigh
Diretor(a)(es/as)2005
AnoReino Unido
PaísKeira Knightley, Matthew Macfadyen, Donald Sutherland
Principais atoresJá tiveram um ranço totalmente gratuito em relação a algo pura e exclusivamente por ser popular?? Sendo eu um sobrevivente da ascensão e queda do Tumblr (2010-2017), devo dizer que Orgulho e Preconceito (2005) era um filme popular pra caralho por lá, incontáveis postagens com sequências de gifs de cenas do filme, todo santo dia que eu entrava naquela rede (uso até hoje, mas são só ruínas por lá atualmente) e via ao menos algumas postagens sobre esse filme, parei de seguir alguns blogs, tentei silenciar tags especificas mas foi tudo inútil, por anos vi imagens desse filme contra minha vontade e jurei nunca assisti-lo.
Corta pra mais de uma década depois, e nada melhor que o poder da amizade pra gente experimentar coisas novas e possivelmente quebrar juramentos, uma amiga que confio muito no taco cinematográfico postou que amava esse longa, ai uma pulga surgiu atrás da minha orelha, não é possível, esse filme é uma porcaria! Romance dos mais baratos!! Mas essa era a ideia de um jovem homem cabecinha de vento plantou na minha cabeça há mais de uma década atrás (eu mesmo), sempre um romântico mas agora mais maduro, dei uma chance pra esse filme e rapaz, foi ótimo que só vi esse agora pois meu eu jovenzinho cabecinha de vento jamais seria capaz de captar a sutileza desse filme!
Obviamente baseado no clássico livro que também pretendo ler futuramente, essa não é apenas uma das muitas versões, mas possivelmente a melhor adaptação dessa obra, a começar pela fotografia, que é absolutamente espetacular, me senti completamente transportando para a zona rural de uma Inglaterra primaveril. Existe um equilíbrio bastante sutil mas extremamente poderoso que foi alcançado aqui entre o contexto visual e os diálogos das personagens, parece uma receitinha de bolo, sequência visual com pouco ou nenhum dialogo introduzindo um lugar (sempre incrivelmente lindo e maravilhoso) ou fazendo uma transição, a seguir sequência de diálogos entre personagens, repete. Tinha tudo pra se tornar algo extremamente respetivo mas foi executado com tanta maestria e sutileza que me deixou completamente encantado.
Os diálogos são outro show a parte, mesmo sendo um filme de época, o linguajar parece levemente modernizado sem perder a formalidade e as características daquele tempo, se mantendo bastante concisos e dinâmicos, nunca muito longos, mesmo em cenas com muitas personagens. É refrescante assistir algo que não fica a todo momento se explicando, isso deve criar uma certa dificuldade pra quem está com a cabeça carcomida de produções Netflix, mas ai está um dos grandes feitos dessa obra, por muito do contexto, principalmente sobre o que as personagens estão sentido é apenas mostrando, mas nunca dito, rever ele (algo que pretendo fazer muito em breve) é como desbloquear uma nova camada de entendimento em relação as personagens, misture isso com a estética impecável e temos aqui um clássico moderno.
Reaprendendo a assistir filmes
E cá estou, chegando a conclusão de que talvez eu não exista isso de ver filmes de menos, estar “atrasado” e etc e talz, vou voltar a ver as coisas no meu tempo, desde que sejam coisas que realmente me interessam e não apenas por estar disponível num catálogo por tempo limitado ou por todos estarem falando no momento, ignorar a hyper velocidade do consumo, até porque, não me interessa 8 a cada 10 produções que saem atualmente.
Sempre fui meio cri cri pra assistir filmes ou séries, gosto de separar um tempo e lugar pra ver algo, assistir prestando a atenção, sem distrações, por isso não vejo nada pelo celular, não gosto de assistir mais de um filme ou mais de alguns episódios de uma série por dia, gosto de absorver e pensar sobre o que acabei de assistir, fast food audiovisual não me nutre, só me irrita. Viva o cinema esquisito, que ouça chocar nem ficar se explicando.
